A aviatriz Beryl Markham desafiou o Atlântico em 1936. Voo solo épico no Percival Vega Gull, com tempestades e pouso forçado.

Na noite de 4 de setembro de 1936, a destemida aviadora Beryl Markham iniciou um audacioso voo solo sobre o Oceano Atlântico. Partindo da RAF Abingdon, em Oxfordshire, Inglaterra, ela tinha como destino a cidade de Nova York, nos Estados Unidos, a bordo de um monoplano Percival P.10 Vega Gull, de matrícula VP-KCC. Sua ambição era ser a primeira mulher a cruzar o Atlântico sozinha na direção leste-oeste.

Markham, já uma piloto experiente e chefe de pilotos da Air Cruisers Limited, havia obtido sua licença para “Todos os Tipos” de aeronaves. Apesar das condições climáticas adversas e dos atrasos, sua determinação a levou a decolar, mesmo ciente dos riscos. O avião, um modelo novo, fora emprestado por John Evans Carberry sob a condição de ser devolvido a tempo de uma corrida aérea na África do Sul.

O Percival Vega Gull, batizado de The Messenger, foi meticulosamente preparado para a longa jornada, incluindo tanques de combustível auxiliares que elevavam sua capacidade total para 965,3 litros. No entanto, o trajeto seria uma batalha constante contra o tempo, o vento e os elementos naturais, conforme informação divulgada por This Day.

A Decolagem Marcada por Desafios Iniciais

Inicialmente, Beryl Markham planejava decolar em 1º de setembro, mas o mau tempo forçou um adiamento. Cansada da espera, ela decidiu partir no dia 4, mesmo com as previsões desfavoráveis. Sua chegada ao aeródromo por volta das 17h foi seguida por um breve atraso para a remoção de um bombardeiro danificado na pista devido aos fortes ventos.

Apesar do peso extra e dos ventos intensos, o Percival Vega Gull levantou voo em apenas 550 metros de pista. Contudo, desde o princípio, Markham enfrentou chuva torrencial, nuvens baixas, neblina e ventos de força de vendaval. Um contratempo imediato foi a perda de seu mapa de navegação, que foi levado pelo vento para fora do cockpit.

Ela manteve o voo a cerca de 610 metros de altitude. Subir mais significava enfrentar o congelamento da chuva, enquanto voar mais baixo colocava-a em risco de ser empurrada para o mar pelos ventos gélidos. A navegação foi feita inteiramente por instrumentos, pois a esperada luz da lua cheia foi ofuscada pela intensidade da tempestade.

O Percival Vega Gull: Um Companheiro à Prova

O avião de Beryl Markham, o Percival P.10 Vega Gull, serial K.34 e registro VP-KCC, era um monoplano de quatro lugares, motor único e trem de pouso fixo. Projetado por Edgar Percival e fabricado pela Percival Aircraft Limited, ele media 7,772 metros de comprimento e tinha uma envergadura de 12,040 metros. Seu motor, um de Havilland Gypsy Six I, entregava 184 cavalos de potência, atingindo 205 cavalos na decolagem.

Com uma velocidade de cruzeiro de 241 quilômetros por hora, o Vega Gull tinha um alcance estimado de 6.115,5 quilômetros com seus tanques auxiliares. Contudo, devido aos ventos frontais severos, Markham estimou sua velocidade de avanço em apenas 145 quilômetros por hora. Durante a travessia, o avião foi avistado por várias embarcações, que relataram sua posição.

A Batalha Contra as Intempéries e a Falha do Motor

À medida que o combustível diminuía, Beryl Markham percebeu que o último tanque, que deveria durar 11 horas, estava sendo consumido mais rapidamente. Ela se aproximava da Terra Nova, mas a visibilidade era quase nula, com chuva, nuvens e neblina. “Foi neblina, chuva, granizo por horas a fio. Se eu subia, era granizo, se eu descia, era chuva. Se eu roçava o mar, era neblina”, descreveu Markham, em citação de Mary S. Lovell em Straight on Till Morning.

A tensão aumentou quando o tanque final esvaziou-se em apenas nove horas e cinco minutos. Markham, em desespero, pensou que não havia salvação. “Eu não conseguia ver nada que me salvasse. O bom e velho Messenger ia parar a qualquer momento”, ela relembrou. Então, através da neblina, a costa surgiu, uma visão “linda” que ela nunca esqueceria. Mas a alegria foi breve.

O Pouso Forçado e o Fim da Odisseia na Nova Escócia

Logo após avistar a costa, o motor do Percival Vega Gull começou a falhar, “put, put, put”, indicando que o combustível havia acabado. Beryl Markham sabia que precisava pousar imediatamente. Ela procurou uma praia, mas a encontrou repleta de rochas, tornando o pouso impossível. Decidiu seguir para o interior, enquanto o motor falhava cada vez mais.

“Foi uma agonia observar meu medidor de gasolina... Eu procurava um campo para pousar. Ainda estava procurando quando o motor parou”, narrou a aviadora. O “campo” revelou-se um pântano de turfa em Baliene Cove, na Ilha Cape Breton, Nova Escócia, Canadá. O avião capotou na superfície macia, e Markham bateu a cabeça, ficando brevemente inconsciente.

Ela conseguiu sair da aeronave danificada e foi levada a uma fazenda próxima, onde logo recebeu ajuda. Apesar de não ter alcançado Nova York, Beryl Markham fez história ao realizar o primeiro voo solo de uma mulher cruzando o Atlântico na rota leste-oeste, uma façanha de coragem e resiliência que ecoa até hoje.

Perguntas Frequentes

Quem foi Beryl Markham e qual sua importância na aviação?

Beryl Markham foi uma aviadora britânica nascida na Inglaterra e criada no Quênia. Ela se tornou a primeira mulher a realizar um voo solo transatlântico na perigosa rota leste-oeste em 1936, solidificando seu legado como uma pioneira e uma das grandes aviatrizes da história.

Qual avião Beryl Markham utilizou em seu voo transatlântico em 1936?

Beryl Markham pilotou um Percival P.10 Vega Gull, de matrícula VP-KCC, apelidado de The Messenger. Este monoplano, originalmente construído para John Evans Carberry, foi adaptado com tanques de combustível auxiliares para a longa travessia sobre o Atlântico.

Onde Beryl Markham pousou após seu voo épico sobre o Atlântico?

Após uma exaustiva jornada e com o motor falhando por falta de combustível, Beryl Markham realizou um pouso forçado em um pântano de turfa em Baliene Cove, na Ilha Cape Breton, Nova Escócia, Canadá. Ela saiu ilesa, apesar de brevemente inconsciente, e seu avião foi danificado na aterrissagem.

Quais foram os principais desafios enfrentados por Beryl Markham durante a travessia?

Beryl Markham enfrentou condições climáticas extremamente severas, incluindo chuva torrencial, neblina densa, granizo e ventos de força de vendaval. Ela também perdeu seu mapa de navegação no início do voo e teve que lutar contra a falha do motor devido ao consumo acelerado de combustível, o que a levou ao pouso forçado.